Isis Valverde em uma nova fase, é capa da Glamour do mês de abril

Com um novo país como lar e protagonista do filme biográfico de Ângela Diniz, a atriz reflete sobre nova fase na carreira, choques da maternidade e padrões impostos às mulheres.

Quando a porta do avião se fecha, as ideias da aspirante a escritora ganham vazão no bloco de notas do celular. Na pasta nomeada como “Livro 2” está o resultado de um dos esboços assinados por Isis Valverde, que interrompe nossa entrevista por vídeo, direto de Los Angeles, com um pedido genuíno: “Vou ler este trecho pra você, mas não me julgue se tiver coisa errada, tá bom?” Aviso dado, ela destaca uma das partes: “Em um voo, me encontrei e me perdi. Lembro que em um deles até chorei, um choro sem motivo daqueles que vêm para desinflamar o ego. Em um voo, fui parar em várias partes da vida, da morte, da sorte”, lê Isis, que já escreveu “Camélias em Mim”, em 2019.

Como enxerga sua relação com a moda? Já passou por fases de mais receio sobre o próprio estilo?

Tem gente que não gosta de mudanças, mas sou aquariana, não sobreviveria sem elas. O meu time, que me acompanha nas minhas loucas mudanças, me dá abertura para ousar e desenvolver confiança. Isso me trouxe mais gosto e diversão para olhar para a moda e, consequentemente, minha carreira. Consegui me remoldar. Acho que o artista tem que fazer isso de vez em quando para não ficar em um casulo velho e deixar de ser borboleta.

No segundo semestre, você estará de volta aos cinemas com o filme “Ângela”. Como foi interpretar essa história que marcou o Brasil?

Encontrei o legado de uma mulher que mudou a nossa história, sofreu e morreu por nós, peitando aquela hierarquia em prol da sua liberdade. Quando me chamaram, fiquei muito feliz por ser uma atriz jovem conectando a história de Ângela Diniz com pessoas que não lembram dela, ou que estão presas em um relacionamento abusivo. O filme pode ser um despertar para si mesmo, para uma mãe, uma filha. Além disso, os homens têm na história um exemplo do que é inadmissível ser feito contra uma mulher. O elenco me deu muito apoio para interpretá-la, foi algo que exigiu uma imersão intensa da minha parte. Nunca apanhei de um cara, mas é uma situação que remete a outras dores, principalmente ligadas à figura masculina. A Ângela cresceu sem o pai, e eu perdi o meu em 2020. Isso mexeu muito comigo.

Qual é o espaço que as preocupações em torno da beleza e estética ocupam na sua vida?

Eu nunca fui de intervenção cirúrgica. A primeira vez que fiz Botox foi aos 30 anos. Tenho até vontade de fazer alguma coisa no bumbum, mas, como tenho medo de agulha, quando chega na hora, deixo quieto. Por enquanto, faço apenas laser e uso cremes desde os 15 anos. Não é sobre evitar envelhecer, mas, sim, cuidar de mim ao longo dos anos. Achei que teria contato com o etarismo mais velha, mas dos 30 anos pra frente já foi uma pressão péssima, ouvi que não podia me vestir de tal jeito, andar com tal grupo, fazer uma maquiagem diferente. Vejo comentários nas redes, me deixam bem assustada. E olha que no meu perfil ainda é pouco! Imagina uma mulher de mais de 50 anos ficando com um cara de 25 ou 30, planejando gravidez? Enquanto isso, os homens “envelhecem bem”.

Após 17 anos de carreira, você lida de outra forma com a exposição midiática?

Não me lembro de viver sem essa pressão. Comecei muito cedo, com a cara tampada e trancada num apartamento sem que ninguém pudesse me ver [para Ana do Véu]. A minha vida é pública, não tem como eu brigar com isso. Sempre tem coisas sendo inventadas, relacionamentos que nunca existiram… Somos mulheres, então sempre vai cair para o nosso lado, vamos levar pedra. Por exemplo, se o casamento acabou, nós é que não seguramos o marido. Estamos numa sociedade que está caminhando adiante, mas que ainda é machista.

FONTE: matéria realizada pela GLAMOUR